segunda-feira, 1 de abril de 2019

Sob o sol de Setúbal

No último sábado, finalmente assisti ao filme Sob o Sol de Toscana. É um filme relativamente antigo (2003), mas só hoje tive a oportunidade de assistir. Foi recomendação de uma amiga linda e não poderia ter sido mais acertada. Obrigada, Cíntia! 

Sob o Sol de Toscana é um filme que te prende, mesmo dispensando drama, efeitos especiais, carnificina e suspense. Se você não tiver planos para o fim do dia e quiser presentear a si com algo leve, delicioso e inspirador, assista a esse filme. Tem no Netflix. 

Foto do Google

Além do deleite que o filme, em si, traz, confesso que ele trouxe algumas questões que me foram muito familiares e vou compartilhar com vocês:

Achei a abordagem do filme super lúcida. Em linhas gerais, digamos que a história trata de uma mulher madura que resolveu conduzir sua vida em direcção a um caminho diferente daquele que é main stream: a personagem vai para uma vila em Toscana. Longe do agito. Isolamento da cidade grande. Vila. Pouca gente. Um vida longe dos holofotes. Deixar uma trajectória para trás e começar outra. Essa é uma das ideias da narrativa, eu diria.

O que mais gostei na história é que ela não segue o clichê de mostrar que todos devemos sair da corrente dominante porque é cool, exótico e alternativo. 

Enfim, quantos de nós já não vimos/ ouvimos histórias de pessoas que "se encontraram" quando resolveram "se perder" dos caminhos óbvios socialmente reconhecidos? Parece que basta uma escolha e pluft: a vida, de repente, passa a fazer sentido. Essa ideia de que há uma escolha certa e basta fazê-la para ser feliz é romantizada demais. Nenhum processo é 100% seguro e bem sucedido. Nenhum... e já aviso que o filme não segue essa linha previsível. 

Ao longo de sua história de mudança, a personagem tem crises, questiona-se sobre o que está fazendo, fica de saco cheio, encontra alegrias, enfadonha-se novamente, cria expectativas, surpreende-se... Tão humano e real quanto nossas vidas, nossas escolhas. Nossos altos e baixos.


Quando cheguei a Portugal, em um contexto totalmente diferente, tive medos que antes não tinha. Eu sabia que era esperado de mim que eu saísse de onde estava para uma situação melhor, caso contrário, seria aquela velha máxima de que "brasileiros são vira-latas e preferem deixar o conforto do próprio país para viver mal no país dos outros".  

Nessas circunstâncias, o pior cenário que eu poderia apresentar seria assim, bem romântico: a de que larguei o luxo de meu lar para morar em uma casinha pitoresca, decorada com flores colhidas do jardim e móveis vintage. Acho que essa seria uma "piora" socialmente compreensível, mas não tenho certeza. rs 

Imaginem, contudo, a sensação que tive quando não pude entregar para as pessoas nenhum desses 2 contextos - não mudei para melhor, nem regredi para uma casinha pitoresca.

Foto do Google

Se eu te contar que vim morar em uma casa normal, cercada por uma vizinhança feia e que dois terços de nossas roupas ainda estão nas malas (porque não há espaço para esvaziá-las) seria ok? 

Seria aceitável imaginar que saí de uma casa com uma cozinha super jeitosa e vim parar em uma cuja pia é minúscula e torna o lavar a louça caótico? 

Alguém pensaria que a minha casinha é original se eu dissesse que as roupas sujas estão em cima da geladeira, por falta de lugar melhor?

Pareceria que estou no paraíso se vocês soubessem que nosso carro teve a porta amassada em uma tentativa de furto e que nossa casa fede porque a rua tem cheiro de esgoto? Pasmem: há dias que o mau-cheiro me acorda.


Carro amassado. Tentativa de furto

Quem entenderia que eu deixei uma casa maravilhosa, que mais parecia uma pousada, para também ser feliz em uma casinha dividida irmãmente com mosquitos? Quando abro as janelas da casa, forma-se uma nuvem de moscas que só consigo eliminar com insecticida e nem sempre uso tal artifício por causa de Dalila. Então, na maioria das vezes, ficamos com as moscas rondando a sala mesmo. Muito singular. 


Moscas no parapeito da janela. Usamos insecticida e deu até para fazer esse montinho com elas.

Enfim, quando se inventa de mudar de vida, espera-se que será para melhorá-la e que o autor da mudança encontre-se feliz e destemido. Mas essa expectativa coloca uma cobrança muito alta no autor da mudança. 

Ninguém me criticou, a não ser eu mesma, imaginando o que iriam falar de mim. Confesso, que, várias vezes, senti vergonha da minha situação, imaginando que perderia a credibilidade por uma escolha, supostamente, tão "errada". Já imaginava que as pessoas me acusariam de deslumbrada, sei lá. Ao mesmo tempo, sentia-me culpada por não estar radiante com a minha nova vida "diferentona". 

Como tudo na vida é aprendizado, obtive mais este de toda essa situação: não foi o sol de Toscana que brilhou de maneira mais especial, mas, sim, a maneira  como a personagem enxergou a vida e lidou com os acontecimentos - bons e ruins. Do mesmo modo, não é o Sol de Setúbal, em si, que me traz um feed lindo no Instagram (me segue lá): é minha capacidade de perceber a beleza a minha volta.

Eu fui feliz Sob o Sol de Piedade...
Eu fui feliz Sob o Sol de Pilares...
Eu fui feliz Sob o Sol de Mury...

Eu sou feliz Sob o Sol de Setúbal...


E serei feliz Sob qualquer lugar onde haja Sol...

PORQUE EU SOU ASSIM: FILTRO O QUE HÁ DE BOM E APROVEITO

Há um tempo atrás, quando ainda estávamos no Brasil, meu marido precisou ser atendido em um hospital público. Foi demorado, desorganizado, precário, sujo... Mas, em meio ao caos, ainda consegui extrair algo positivo dali e escrevi sobre esse dia, em um post do Instagram (clique aqui para ler).

É verdade que demorei para conseguir sintonizar meu olhar para o que havia de bom, quando cheguei a Portugal. Agora, já estou em equilíbrio de novo. 

Não pensem que, por que meus relatos sobre PT são apaixonados,  estou na Terra da Fantasia. As moscas seguem fazendo baile na minha casa, o cheiro de esgoto continua, a pia não cresceu e em cima da geladeira ainda é o melhor lugar para colocar a roupa suja. 

Às vezes imagino que vão me criticar dizendo que eu sou vira-latas e blá-blá-blá. Mas a vida é minha e as escolhas também. O máximo que posso fazer é emprestar minhas lentes, como neste post,  para que vejam as coisas sob a minha óptica.

Por hora, estou satisfeita por ter descoberto que sempre consigo tirar o melhor do que está diante de mim: minha capacidade de valorizar o que há de bom rende-me dias mais felizes e  isso é inerente a mim. 

No entanto, como o sol nasce para todos, pode funcionar para você também.

Foto do Google

Conta para mim: você está sendo feliz Sob qual Sol?

Quer comprar imóvel em Portugal? Clica aqui para informações úteis e credíveis acerca do mercado português, anúncios de imóveis e, também, para conhecer a zona centro de Portugal, essa região tão linda e acolhedora.



Estou no Facebook (clica aqui) e no Instagram (clica aqui também), caso queira me acompanhar de perto. 

Até breve!



12 comentários:

  1. Isso aí meu amor, como diz o ditado: as vezes precisamos dar um passo atrás para tomar impulso :).
    Te amo, que você possa sempre ser feliz e contagiar a todos nós com sua felicidade

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    1. Obrigada, querido! Mas eu não dei passo para trás nenhum. Tô ótima, saltitante e serelepe! :)

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  2. Oi, Mariana!
    Vi sua "curtida" no meu Insta e fui espiar - eu AMO cachos e não resisti! :)
    Eu vivo em Figueira da Foz com minha alma gêmea e meu filho de patas há 3 anos. Tenho 57 anos e morava em Copacabana - em plena Avenida Atlântica! Não pense que me acostumei - sou espiritualista e vivo buscando as energias positivas em todos os lados. Aqui em Portugal tenho pouquíssimos amigos (será que tenho algum???), detesto a comida sem tempero nem sal mas AMO minha casa, minha cidade, a paz que vivemos e o que atualmente faço - bonequinhas de pano para entregar para crianças (inicialmente doentes e agora talvez carentes), mas acredite se quiser que nem a solidariedade é permitida aqui em Portugal. Lar de Idosos só se pode ir se vc tiver algum parente internado. Já enviei e-mail para tudo na internet tentando encontrar para quem doas as bonequinhas e não consigo - já são 40 prontas. Só doei 3! No Facebook tem a historinha delas ( http://www.facebook.com/projetovic ).
    Vc é novinha, cheia de esperança e com o coração também pulsante de amor no peito. Quando quiser vir à Figueira passear, será um prazer receber você e seu marido! (infelizmente a cachorrinha não pq meu cão é ciumento pra kct e tá muito velhinho!).
    Fiquem com Deus e receba um beijinho
    Mel

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    1. Oi, Mel! Tudo bem? Eu devo ter curtido você por meio da hashtag de Figueira da Foz. Uma amiga querida vai se mudar para a sua cidade em breve, se Deus quiser, e eu acompanho a cidade-xodó dela e ela a minha. Acabei de entrar no seu insta e ver a fofura que seu cãozinho é, suas bonequinhas encantadoras e também pude ver como você é bonitona!! Que sorriso largo e acolhedor! :)

      Você não se acostumou com Figueira ou com a vida em Copacabana? A zona sul do Rio tem um astral, uma bossa, que lhe é muito característica, no entanto, já fazia um tempo que eu não dava o ar da graça por lá. Frequentei muito a praia do Leme e algumas boates na região, há uns 10 anos atrás. Bons tempos, por sinal! heheheh
      Eu sou uma pessoa de poucos amigos, sabe? Então, por enquanto, estou levando a suposta solidão de boas. Falo por zap com as pessoas mais próximas e vou seguindo a vida. Mas entendo que você já esteja aqui há mais tempo. Respondo por mim agora, nesses 2 meses que estou aqui, mas não sei como estarei em 3 anos, como você.

      Sobre a comida, também estou tranquila. Sou uma comilona de mão cheia (ou seria de boca cheia??kkkk)...
      Imagino que sua casa e a sua vida estejam uma delícia! Eu não tenho talento nenhum para artesanato, mas não saio dessa vida sem aprender a fazer um tricô decente. Acho tão gostoso ter um hobby!! Suas bonequinhas são uma graça <3 <3 <3

      Sobre a doação, creio que agora você já tenho conseguido uma parceria, pelo que vi no seu insta. No entanto, caso eu quisesse fazer alguma doação, eu procuraria alguma escola local, de preferência, as que ficam mais afastadas, que atendem pessoas mais isoladas. Ou, ainda, entraria em um bairro social e bateria de porta em porta, escolhendo as mais humildes, e ofereceria a prenda. Sõ ideias meio doidas, estou pensando alto sobre a sua situação.

      Agradeço imensamente o convite gentil e o beijo carinhoso. Vou morar em Marinha Grande (no distrito de Leiria) em breve. A distância de lá à Figueira não é tanta: 40 minutos. Creio que seria perfeitamente possível ir passear por Figueira e aproveitar para te conhecer pessoalmente, tomando aquele cafezinho com pastel de natas. :)

      Obrigada pelo comentário, fique com Deus você também. Beijocas!

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    2. Enfim encontrei sua resposta (que não dá para ver pelo telemóvel!)... :)

      Bom, quando digo que não me acostumei, foi com Portugal em si - as pessoas, a comida... :/ Em compensação, adoro a cidade, a paz, estar com meu marido e meu cãozinho... Estava com doença do pânico em Copacabana - aqui deve ter um cantinho para mim!

      Não pense que é fácil vc se chegar nas pessoas carentes ou bater na porta de alguém sem conhecer e oferecer alguma coisa - as pessoas aqui são COMPLETAMENTE diferentes dos brasileiros e tem desconfiança para tudo. Não consegui nenhum local mas elas estão indo ao pouco - semana passada (enfim) consegui doar para uma criança com cancro e a alegria dela é o que vale a pena. Se fosse para eu deixar em qualquer lugar para ser entregue por outra pessoa, já tinha conseguido, mas quero receber a energia que coloco nas bonequinhas - é mão dupla, entende? :)

      Quando vier pela Figueira, avise que teremos prazer em marcar para nos encontrar e conhecer!

      Beijinhos

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    3. Que pena que é mais complicado do que parece! Mas espero que você consiga encontrar seu caminho. Pessoas aguardam o seu encontro com elas. Obrigada pelo carinho. Beijos!!

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  3. Fico encantada com suas palavras! Sabe, eu queria muito ter o impulso de mudar minha vida, viver em lugar mais tranquilo - de preferência na serra porque detesto o calor - mas como sou servidora da prefeitura e tenho que trabalhar no município do Rio, não tive a coragem de largar tudo para arrumar emprego em outro lugar. Admiro a sua capacidade de ver beleza mesmo onde não tem, coisa que eu não consigo por mais que eu tente, talvez por morar onde eu moro a minha vida inteira. Tenho certeza que vocês vão enfrentar esses percalços iniciais com o bom humor que lhes são característicos, e em breve tudo vai se acertar. Estou aqui na torcida, com muita fé. Um beijo, minha querida!

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    1. Ah, Elô! É claro que você enxerga beleza: você tem um tremendo bom gosto musical, curte leitura, gosta de viajar para ver paisagens mais lindas... Com certeza, você é acima da média em termos de sensibilidade. Não tenho a menor dúvida! Entendo a questão de que o emprego estável acaba nos prendendo, especialmente, quando a carga horária é alta. Meu concurso era de 16h... Em 2 dias eu ficava livre da agonia...kkk Dava para morar em Friburgo e trabalhar no Rio nesse esquema porque eu dormia na casa dos meus pais. Mas de qualquer forma, vá colocando uma coisa na sua cabeça: se você realmente quiser sair do Rio, você pode. É claro que você já deve ter cogitado uma permuta, né? Não deve ser fácil, mas, de todo modo, é uma possibilidade. Outra opção seria quando você se aposentasse. Recomendo fortemente Friburgo - não é perfeita, mas em termos de segurança e sossego dá de mil a zero no Rio. Além disso, o custo de vida lá é menor. O aluguéis por lá devem ser bem mais em conta e você fica a 3h de distância de sua família. Em uma situação em que vocês precisem uns dos outros, tem-se possibilidades. Torço muito por você também. Acho uma pena uma mulher inteligente e gentil como você morando em um lugar que não esteja à sua altura #prontofalei. Por isso, te digo de coração, só temos uma vida. Relutei partir por causa dos meus pais, parecia que eu estava os abandonando: a única viagem que faziam era para ir à minha casa e agora eu iria privá-los até disso?! Essa questão ainda me causa um certo remorso, mas, por outro lado, já fui inundada por gratidão tantas vezes, nesses 2 meses, que arrependimento nenhum vai tirar esse sentimento de satisfação. Cabe a mim, agora, botar pilha em papai e mamãe para que ampliem a rota de suas viagens... Beijocas mil!!

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    2. Puxa, muito obrigada pelas suas palavras, sei que são sinceras e fico muito feliz! Vou pensar muito na sua sugestão sobre Friburgo. Infelizmente não consigo permuta porque sou servidora da Prefeitura e não do Estado, além de ser administrativa, o que limita muito minhas opções. Talvez, se eu conseguir me aposentar ainda com uma idade razoável (a esperança era daqui a 6 anos, agora por enquanto tornou-se uma incógnita rs), eu me mude daqui sim. Obrigada pelo incentivo! Um beijo, querida!

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    3. Que seus desejos mais sinceros se realizem! Que venha a aposentadoria e a mudança! :)

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  4. Oi Mari,
    Quero assistir ao filme o mais breve que conseguir.
    Estou pasma com os relatos, as moscas, o carro amassado.... Não é fácil mesmo, por aqui eu também vou filtrando, aproveitando o lado positivo de tudo, porque sempre tem. E vamos curtir o sol ... Uhuuuuuu. Beijão Mariana!

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    1. Mariane, esse filme é uma delícia!!! Prepara-te para sustentar um sorrisinho bobo por todo o filme... :) Tivemos, sim, percalços, mas há outras tantas positivas. Temos apenas que ajustar a mira. =) Beijocas!!

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