A data se aproxima: daqui a 1 mês faremos um ano vivendo em terras lusas.
Tem gente que diz que 1 ano de imigração para Portugal equivale a cinco. Pessoalmente,não tenho a sensação de que vivi tanta coisa assim. Claro que muita coisa aconteceu: conquistamos coisas que pessoas levam anos para conseguir, enfrentamos a tristeza de não celebrar o aniversário de nosso afilhada junto a ela, encaramos a dor de não poder dar suporte para parentes que foram enlutados, não pudemos nos despedir de queridos que faleceram e passamos diariamente pela insegurança de estarmos juntos e, ao mesmo tempo, sós.
Sinto falta do meu quintal brasileiro, da minha cabeleireira (!!), da minha fisioterapeuta, de vários alunos queridos de Friburgo, da minha psicóloga, dos dentistas do Bombeiro, da facilidade de receber meus pais e irmão em minha casa. Sinto falta da vida que a Dalila tinha: de poder explorar o quintal à vontade. Agora que sei o que sei, faria diferente em Nova Friburgo. Mas eu só sei o que poderia ter feito diferente, depois do que aprendi aqui. A vida é assim mesmo.
E então? Valeu mesmo a pena ter deixado o Brasil para viver em Portugal?
Ainda é muito cedo para dizer que valeu a pena, considerando a vida que eu tinha no Brasil e a vida que eu tenho agora.
Lamento a ausência de certas facilidades e profissionais que temos com fartura em solo verde-e-amarelo.
Por outra lado, destaco pontos que me encantam cá:
- É chover molhado, mas fazer o quê? SEGURANÇA
Fico tranquila com a minha filha indo e vinda da escola. Não tenho paranóia de ter que olhar a rua antes de abrir o portão da garagem para entrar. Não fico fechada no carro com medo de ser abordada. Outro dia meu irmão comentou qualquer coisa do tipo "um colega foi assaltado, coisa de quem mora no Rio de Janeiro". A gente se acostuma a não poder usar as nossas coisas, a deixar tudo meio camuflado, a andar em vigília, a evitar sair à noite, a só estar dentro das "bolhas de protecção" que os espaços privados oferecem: condomínios, estacionamentos, shoppings... Nenhum evento que contasse com muita gente no Rio, ou mesmo em Nova Friburgo, deixava-me 100% à vontade. Aqui, não.
Claro que quando eu saio do carro, evito deixar objectos à mostra. Eu não uso acessórios de ouro, mas se os tivesse, usaria-os, sem problema. Você se imagina indo a um evento gratuito, ao ar livre, às 21h da noite, com um filho de 2 anos? Pois é o que acontece aqui. Os eventos acontecem e, pasmem: não tem briga, não tem empurra-empurra, não tem nada que te deixe temeroso. As pessoas chegam às festas promovidas na cidade com bebês (sim, de noite, no frio!), com filhos pequenos, dentro de carrinhos... Nas primeiras vezes, eu olhei e pensei "que absurdo, que gente doida trazer criança para um evento desses". Mas, depois, entendi que não há motivos para não trazer. Claro que estou falando de Marinha Grande, uma cidade pequena. Pode ser que em Lisboa a vibe seja outra, mas, aqui, no interior, a coisa funciona desse jeito. As pessoas ficam lá, simplesmente curtindo o evento, passeando, olhando o show... Ninguém mexe com ninguém. Quem tá cansado, senta no chão. Não tem ninguém "se pegando" nos lugares mais "discretos". É uma outra filosofia. Eu não dou bobeira, meu sangue brasileiro ensinou-me a estar ligada e a cuidar dos meus pertences, contudo, ainda espanta-me quando vejo locais com bens pessoais caros carregando-os desatentamente. Eu não faria isso, mas é aquilo: onde não há fumaça, não há fogo.
2. SEMELHANÇA CULTURAL
Eu esperava que houvesse choque cultural. Mas, francamente, se você é um brasileiro educado e convive com pessoas educadas, você não terá surpresas. Os portugueses são muito parecidos com os friburguenses (que são diferentes dos cariocas!). O carioca chega chegando, faz amizade com todo mundo, zoa... O friburguense é mais contido e reservado - mas é brasileiro, tipo os portugueses... hehhehe Os portugas falam alto, gostam de comer, de bater papo, dão muitos beijinhos (se um português entrar em uma sala de reunião com 15 pessoas ele cumprimentará as 15 com 2 beijinhos), fazem amizade também. O povo português, de um modo geral, é generoso e amistoso: minha vizinha trouxe-me um prato de doces alantejanos no Natal para eu provar. Quando estou no parque com a Dalila, eles não deixam de chamar: "Óh, Dãlila, venha cá para lhe fazer festinhas". rsrs Precisei de um saquinho extra para catar os "cocós" da Dalila e não me faltou oferta: apareceram 3. Acho que, no que eles podem, são solícitos e carinhosos. Os portugueses também "tem jeitinho", estacionam o carro nas vagas de maneiras ~duvidosas~ e isso era algo que eu não esperava. Mas, no fim das contas, sinto-me acolhida por aqui porque não estou com pessoas frias e robóticas. Estou com gente como a gente, com qualidades e defeitos e é esta familiaridade com a personalidade dos portugueses que preenche meus dias de saudades do Brasil.
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| Doces Alantejanos ofertados pela vizinha 😋 |
3. A coesão do país
Fico contente em saber que tudo está interligado: se minha filha falta aula para ir ao médico por causa de dor no joelho, por exemplo, quando volta à escola, os professores perguntam se o joelho está melhor. Meu marido ficou internado (papo para outro post) e, ao entrar no hospital, respondeu a um questionário sobre medicamentos que usava. Eu levei-lhe o medicamento de casa, mas foi trabalho em vão: no dia seguinte, o hospital estava a oferecer-lhe o medicamento, na dosagem certinha, com o nome dele escrito em cima do blister. (Isso porque ele disse que não era um medicamento importante!) Coesão! Vontade de fazer o certo, de oferecer o melhor, de estar com tudo engrenado. Sinto-me confiante em um país assim.
4. O tamanico de Portugal
O facto de o país ser pequenino também é um factor que me agrada: consigo viajar facilmente. Em 15 minutos saio de uma cidade a outra e isto significa conhecer novos centrinhos urbanos, novos parques, novos espaços públicos que, podem não ser sempre sumptuosos, mas o capricho dos jardins e dos banquinhos das praças trazem uma bossa para cada roteiro.
5. Os VELHINHOS portugas
Se você é uma pessoa que se encanta com detalhes, não vai ficar indiferente ao ver velhinhos nas ruas passeando, encontrando-se uns com outros, indo a teatros, jogos, eventos lotados, andando de bicicleta (isso, você não leu errado!), dirigindo... Outro dia eu estava no cabeleireiro e lá havia um senhorzinho simpático dando um tapa no visual; ao sair, ele desejou-nos "bom ano" (é o "feliz ano novo"português) e batemos aquele papo de desejos de muita saúde etc. Por fim, o velhinho acabou por dizer que tinha 82 anos e saiu dirigindo seu peugeot ano 2000. Todo bonitinho. Você tem vô? Imagina seu vôzinho com 82 anos, indo cortar o cabelo sozinho, todo bonitinho e dirigindo seu próprio carro? Pois... Aqui é super comum... Os velhinhos vão ao parque com seus cães, vão às compras... VIVEM. E andam elegantes: de boina, de casaco, de sapato, cachecol... Uma fofura. Com as senhorinhas, a mesma coisa: botinha, cabeça branca e meia calça com saia. Eu sempre gosto de vê-los e perceber que o avançar da idade não os deixa tão impotentes e, obviamente, fico com a esperança de que, ao viver uma vida portuguesa, que eu possa envelhecer com a mesma qualidade com que os portugueses envelhecem.
6. Mobilidade na União Europeia
Tenho dupla cidadania e minha filha também. Estar em Portugal e fazer parte da União Europeia é muito valioso. Posso ir e vir para qualquer país do bloco. Minha filha tem acesso à educação portuguesa bem como pode ter acesso à educação oferecida por outros países. Talvez EU não consiga viajar porque tenho que cuidar da casa, do cachorro, da minha filha etc. Mas a minha filha pode e vai, se Deus quiser! Ela está lidando com pessoas mais civilizadas (por isso que os eventos aqui não dão treta e os espaços públicos estão mais preservados) e, assim que começar a trabalhar e juntar dinheiro, vai ter mobilidade para conhecer outros países e aumentar seu conhecimento de mundo NO MUNDO. Isso é lindo. Ela já fala inglês fluentemente e está aprendendo francês na escola. Minhas expectativas para ela são as melhores.
Isso tudo é suficiente para dizer que fiz a escolha certa?
Por enquanto, os motivos 1 e 6 são os que me fazem esperar até que eu tenha a resposta para esta pergunta. Já que estou aqui, seguirei apostando em Portugal com a esperança de que será daqui para melhor.
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Feliz portugaliversário para mim! :)

Oi Mariana, gostei do teu artigo. Parabéns.
ResponderExcluirA frase 'Eu esperava que houvesse choque cultural. Mas, francamente, se você é um brasileiro educado e convive com pessoas educadas, você não terá surpresas.' expressa exatamente a maneira como eu penso. Estarei mudando pra Portugal até o meio do ano e pretendo levar uma vida tranquila, me adequando à cultura desse país e respeitando meus patrícios portugueses. Abraços!
Oi, Fernando! Obrigada pelo teu comentário. Como eu disse, se vc for educado, vc não estranhará nada. Desejo-lhe uma boa vinda, sorte e saúde para desfrutar da vida portuguesa. :)
ExcluirOi Mariana! Gostei muito da tua publicação. Parabéns! Que contes muitos mais anos neste país à beira mar plantado. Beijinhos ����
ResponderExcluirObrigada, doce Baby Face!! Portugal é uma delícia, os portugueses são gente boa e só posso torcer para que este país tão pequenino cresça mais e mais. Ele merece!!
ExcluirNossa, como passou rápido! Um ano já! Gostei da parte dos velhinhos! Rsrs. Certamente um país como Portugal oferece condições muito melhores para a qualidade de vida de jovens, adultos e, consequentemente, idosos. Tenho curiosidade de saber mais sobre como funciona a saúde pública, mas pelo pouco que sei, é bem satisfatória. Que bons ventos portugueses soprem na sua vida esse ano! ����
ResponderExcluirVou escrever um post sobre a nossa experiência com a saúde pública! Barbieri ficou internado 1 semana. Mas acho que é mais ou menos o ritmo do hospital dos bombeiros... Bom mas sem luxos. Aqui, um pouco mais protocolar talvez...
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