terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Quem quer ser um milionário

Olá, povo! Tudo bem? Espero que sim :) 


Hoje não vou tratar de Portugal especificamente, mas eu preciso compartilhar os pensamentos a seguir. 


Eu nunca fui uma pessoa ambiciosa: tenho um estilo de vida modesto, não sofro por não ter coisas de marca e pouca coisa já me diverte. Contudo, desde que mudei de carreira, saindo do magistério para o ramo imobiliário, certos paradigmas mudaram.


Entrei para uma franchise americana, referência internacional na prestação de serviços e nos modelos de negócio em si. Ao fazer os treinamentos exigidos pela empresa, aos poucos, vão vendendo-nos o sonho americano: ser um empresário do próprio negócio, fazer o dinheiro trabalhar para você, dinheiro, viagens, resiliência para ser uma história de sucesso tipo aquelas que ouvimos sobre empresários que padeceram até tornarem-se referências no mundo business. Não vou discutir os pormenores de tudo isso porque só esse recorte daria um post enorme e eu vim aqui para falar de emoção e não para fazer uma análise crítica do capitalismo, suas maravilhas e seus estragos. 


Absorvi a ideia do que posso atingir como consultora imobiliária e, com isso, pela primeira vez em toda a minha vida, SONHEI:

  • Sonhei ter um carro lindo e invocado (porque sempre tive um fraco por carrões), tipo uma Mercedes ou uma BMW. 
  • Sonhei não ter limitações: poder mandar passagem de avião para meus pais sem ter que fazer disso um projeto de vida. 
  • Sonhei poder viajar, conhecer lugares lindos em que eu pudesse contemplar a glória de Deus ante paisagens inimagináveis. 
  • Sonhei ter coisas que nunca haviam passado pela minha cabeça, por causa da  minha capacidade de ajustar-me às possibilidades: eu sou o tipo de gente que nem olha (já que olhar é grátis) a vitrine da loja cara, se não couber no meu bolso. Meu olhar é treinado para o que sei que está ao meu alcance. Porém, esse novo contexto ~sonhador~ entreteve meus pensamentos, assim que coloquei o pé em minha carreira business; desse modo, o que antes não existia, sequer em pensamento, passou a ser meu assunto do dia.

Sinceramente, se alguém lhe dissesse que VOCÊ pode FAZER sua vida financeira e que ela depende ÚNICA e exclusivamente de VOCÊ, sendo você uma pessoa inteligente, dedicada e trabalhadora, confesse: você também ficaria empolgado, não é? 

Sendo comprometida como sou, além de arregaçar as mangas para o trabalho, aproveitei para informar-me sobre o imobiliário em Portugal, estudar técnicas de vendas e aprender um pouco mais sobre o que é ser profissional de negócios. Li muita coisa interessante e enriquecedora...

Porém (sempre há um PORÉM), ao analisar os dados, considerar os factos e observar pessoas à minha volta, comecei a questionar muitas coisas, embora, aqui, eu vá focar em apenas uma, muito pessoal:

Será mesmo que eu tenho perfil para ser o próximo exemplo glorioso de gente que mudou de vida em 180 graus? 



Modéstia à parte, eu até sei que poderia ser (por competência), mas não sei quero (por aptidão). 

Vejam bem:  dinheiro A MAIS nunca é DEMAIS


Quem não gostaria de ter recursos financeiros ilimitados para explorar TUDO que a vida tem para oferecer?

Mas... Sinceramente, isso realmente é para poucos e eu estou a perguntar-me se pertenço a este seleto grupo... 

Questiono-me:

Quanto custa-me andar a milha extra?

Será que sou tão resiliente quanto penso?

Estou mesmo compreendendo todo o mundo business, não só do ponto de vista técnico mas também do emocional?

O que prefiro enfrentar: a ansiedade diante do incerto ou a previsão de uma vida padrão?

Navegando no pinterest, procurando motivação para "chegar lá", dei-me conta de que muitas mensagens reforçam a auto-suficiência, como se a solidão fosse um facto. Pelo que li em mensagens motivacionais sobre negócios, a coisa é feia: é agressiva, é de guerra, é de superação, mas, acima de tudo, é bélica

Alguns vêem isso como um desafio, outros, não vão ter aptidão para viver em estado de vigília  (guerra é guerra).

É preciso refletir a respeito de quais renúncias conseguimos fazer e quais não nos apetecem seja para ser o próximo Bill Gates, seja para ser o próximo treinador de golfinhos. Quase tudo é questão de escolha (e um tanto é questão de oportunidade).


Não há "fracos" e  "fortes", como os que "chegaram lá" gostam de insinuar: "se você não 'chegou lá' é porque desistiu, porque foi fraco". Há muito mais nisto do que esta maneira simplista de apresentar os factos.


Vejo pessoas com muita abundância financeira tentando preencher os dias com palestra motivacional, hobby e tratamentos diversos. Avisto um tanto de pessoas sendo ensinadas que são guerreiras, que são vencedoras, que o pódio é para poucos... E lá se vai a legião de campeões solitários. que "chegaram lá" - onde?  Tenho medo de imaginar casas bonitas porém vazias (de gente e de espírito). Apavora-me uma pessoa poder pagar pela torta mais chique do mundo mas não ter  cheiro de bolo no forno da própria cozinha.  

Ouvi falar em pessoas que morreram lutando pelo sonho; parece nobre, mas, no fundo, o que aconteceu é que a pessoa estava ainda no processo da conquista para ser um vencedor e - DO NADA - veio a falecer.  Ouvi falar em pessoas que não se conformaram em seguir o caminho óbvio da multidão, pelejaram e fizeram história, virando exemplo. 


Absolutamente tudo pode acontecer!


Que tipo de pessoa é você? 



Não quero demonizar os empresários afirmando que suas vidas são recheadas de bens e que lhes faltam amigos. Não quero romantizar o pobre dizendo que ele tem uma vida modesta mas rica de relações pessoais. Isto é balela, é estereótipo. O que sei é que somos todos cobrados a chegar lá, a vencer na vida, sem ter consciência sincera de onde fica esse "lá", essa vitória. Andamos ansiosos pensando que se não agarrarmos as oportunidades estamos sendo covardes e acomodados. Aprendemos que a zona de conforto não engrandece, sem considerar que ela é um direito de cada um. Não estou fazendo apologia à vagabundagem, eu acho mesmo que todos têm que crescer e evoluir de alguma forma. O que quero dizer é que temos o direito de gostar (se gostarmos!) de onde chegamos e  não necessariamente ter que "passar de fase" para não ser acomodado.

Eu saí da minha zona de conforto, que seria o magistério; agora, não sei se estou disposta a endurecer para caber no mundo "dos vencedores": qual é a próxima opção? Procurar uma coisa mais glamourousa para fazer? Ou voltar para onde não me satisfazia? Tem que haver mais opções! 

Não sei se vim ao mundo para fazer algo fascinante; talvez eu seja "só" aquela que vá pôr o bolo no forno. Se bem que em épocas de histeria-mindset-pasteurizada-Tony Robbins, ter o bolo no forno chega a ter até um certo charme. Tão vintage, tão anos 90.


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Cada um tem seu caminho e seu chamado. Meu ideal de "vencer na vida" actualmente é ter a certeza de que estou exactamente onde deveria. Dirigir um carrão seria muito maneiro, mas eu não me vejo disposta a sacrificar certas coisas em nome disto. Eu creio que algumas pessoas vieram ao mundo para fazer GRANDE e outras vieram para HARMONIZAR.  

Para já, prefiro estar em harmonia, custe o que custar, ainda que seja pouco. 

Deixo aqui minha admiração para quem veio para ser GRANDE, parabéns e obrigada pelo que estão fazendo. Para quem veio para HARMONIZAR o grandioso, obrigada pela simbiose perfeita - que não existiria sem vocês. 

Sejamos felizes, como bem entendermos. #paz

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